
Era 27 de janeiro de 1848. Na Câmara dos Deputados da França, Alexis de Tocqueville subiu à tribuna para fazer uma advertência que entraria para a história.
A França vivia sob a Monarquia de Julho, do rei Luís Filipe. A insatisfação crescia, a confiança nas instituições se deteriorava e as ideias revolucionárias ganhavam força. Tocqueville percebeu o que muitos preferiam ignorar: a aparente tranquilidade das ruas escondia uma profunda crise política e moral. “Estamos dormindo sobre um vulcão”, disse.
Menos de um mês depois, Paris foi tomada por barricadas. A revolução derrubou a monarquia e proclamou a Segunda República.
Quase 180 anos depois, a foto mostra a prefeitura de Limoges em chamas, no último sábado.
O prédio foi inaugurado em 1883 e atravessou duas guerras mundiais. Em 1940, abrigou os parlamentares belgas exilados. Durante a ocupação nazista, funcionários da prefeitura ajudaram a Resistência: sabotavam listas de judeus, escondiam armas e produziam documentos falsos para salvar vidas. A 40 quilômetros dali, em Oradour-sur-Glane, as SS massacraram 642 pessoas em junho de 1944.
O prédio que sobreviveu aos nazistas não sobreviveu a uma noite de vandalismo.
Manifestantes mascarados invadiram a prefeitura e atearam fogo com funcionários ainda lá dentro. A polícia ficou sem gás lacrimogêneo e recuou. O telhado desabou e a torre do sino caiu. “Toda a fachada e a parte histórica foram quase 100% destruídas”, disse uma autoridade regional.
Limoges não foi um caso isolado. Segundo o Financial Times, cerca de 2.000 pessoas foram presas no país, 855 só em Paris, e perto de 600 policiais e bombeiros ficaram feridos. Tudo começou em setembro, com estudantes protestando contra escolas sem professores e caindo aos pedaços. O movimento foi capturado pelos radicais, e 24 escolas acabaram incendiadas ou depredadas.
A falta de dinheiro não explica a revolta. O Estado francês gastou 57% do PIB em 2025, um dos maiores percentuais do mundo. Gasta muito e entrega pouco, e o cidadão sente isso no custo de vida.
Manifestar-se é um direito. Incendiar, saquear e destruir o que é dos outros nunca foi liberdade.
No domingo, Emmanuel Macron perguntou: “Como franceses podem fazer isso com a França?” Quando o presidente se surpreende, é sinal de que ninguém no governo ouviu o ronco do vulcão.
Tocqueville entendeu que a estabilidade de uma nação depende de algo mais profundo do que a força das instituições: depende dos valores e das responsabilidades dos seus cidadãos.
Uma sociedade leva séculos para construir sua civilização e pode começar a destruí-la em uma única noite.
Resta saber se a França voltou a dormir sobre um vulcão.
E se nós, no Brasil, estamos atentos ao nosso.
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