O frango brasileiro ganha na granja e perde na alfândega
O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango. Segundo o USDA, respondemos por mais de 36% de todo o comércio global do produto em 2025. Somos competitivos em genética, nutrição, sanidade, escala e custo de produção — ninguém disputa essa liderança dentro da granja.
Mas quando o frango brasileiro chega aos Estados Unidos, aparece uma desvantagem que não nasceu ali.
Nas principais linhas de cortes e miúdos, frescos ou congelados, a tarifa geral americana é de US$ 0,176 por quilo — US$ 176 por tonelada. No frango inteiro, US$ 0,088 por quilo, US$ 88 por tonelada.

Agora o dado que deveria incomodar: México e Canadá pagam tarifa zero. Chile, zero. Austrália, zero. Colômbia, zero. Peru, zero. Toda a América Central e a República Dominicana, zero, pelo DR-CAFTA. A lista de isentos ainda inclui Bahrein, Israel, Jordânia, Coreia do Sul, Marrocos, Omã e Cingapura.
Por quê? Porque esses países negociaram acordo comercial com os Estados Unidos. O Brasil não tem um equivalente.
O caso do Chile é o mais constrangedor de todos. Não é México ou Canadá, com fronteira seca e décadas de integração econômica com os americanos. É outro país sul-americano, sem vantagem geográfica sobre o Brasil, cujo acordo de livre comércio com os Estados Unidos está em vigor desde 2004. O Chile negociou. O Brasil não.
Vale um esclarecimento para não simplificar o problema pela metade: em 2026, o frango brasileiro ficou de fora da sobretaxa de 25% que os EUA aplicaram a boa parte dos produtos do país. Mas essa exceção vale só para a tarifa nova, de guerra comercial. A de US$ 176 por tonelada é outra camada, mais antiga, que se aplica a qualquer país sem acordo — e essa o Brasil paga integralmente, em cada quilo embarcado.
É claro que tarifa não é a única variável de uma exportação. Sanidade, habilitação de planta, logística, preço e oferta doméstica também pesam. Mas US$ 176 por tonelada é uma desvantagem objetiva, que nenhuma eficiência de granja apaga sozinha.
Isso não é diferença de produtividade. É diferença de acesso a mercado.
O produtor brasileiro passou décadas tirando centavos do custo de cada quilo produzido — conversão alimentar, genética, manejo, escala. Depois o produto chega à fronteira carregando uma tarifa que o concorrente ao lado simplesmente não paga.
O Brasil já provou que sabe produzir proteína animal para o mundo. O que falta é diplomacia comercial à altura dessa competitividade. Não basta abrir embaixada, participar de reunião e anunciar memorando — diplomacia comercial se mede em tarifa derrubada, cota ampliada, barreira removida, mercado efetivamente aberto.
Nosso produtor já fez a parte difícil: tornou o frango brasileiro o mais competitivo do mundo.
Não dá para continuar exigindo que ele compense na granja aquilo que o país não conseguiu negociar fora dela.
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