O Brasil não está em guerra. Mas os números parecem de uma.

O Uppsala Conflict Data Program, instituto sueco referência mundial em dados de conflito, acaba de divulgar um retrato assustador da violência no mundo. Em 2025, foram 65 conflitos armados envolvendo Estados — o maior número desde o início da série, em 1946.
Treze atingiram a classificação de guerra. No total, cerca de 244.600 pessoas morreram em episódios de violência organizada. Foi o segundo ano mais sangrento desde o genocídio de Ruanda, em 1994.
A guerra mais mortal foi Rússia-Ucrânia: aproximadamente 94.700 mortos somente em 2025 — 25% a mais que em 2024. Não foi trégua. Foi o ano mais letal desde que a guerra começou.
Agora olhe para o Brasil.
Não temos tropas inimigas atravessando fronteira. Não temos cidade bombardeada. Não temos tanque na rua. Mesmo assim, 40.775 brasileiros morreram de forma violenta e intencional em 2025. Em média, 112 por dia.
Para ter dimensão: se dividíssemos, só como exercício matemático, os 94.700 mortos da guerra Rússia-Ucrânia igualmente entre os dois lados, cada lado teria cerca de 47.350 mortos.
Brasil: 40.775.
Metade matemática de uma das guerras mais mortais já registradas: 47.350.
É preciso deixar claro: essa divisão não representa a baixa real de russos e ucranianos, e mortes em guerra e mortes violentas no Brasil são estatísticas de natureza diferente. A comparação serve só para revelar a ordem de grandeza — e a ordem de grandeza é assustadora.
E o dado mais desconcertante é outro. 2025 foi o ano com a menor taxa de mortes violentas intencionais do Brasil desde que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública começou a série, em 2012. Caiu 8,2%, para 19,1 por 100 mil habitantes — o melhor resultado em treze anos.
Ou seja: estamos comemorando nosso melhor resultado enquanto ainda enterramos mais de 40 mil brasileiros por ano. O teto da nossa melhora esbarra perto do piso de um dos lados da guerra mais letal do planeta.
Segurança pública é uma das poucas funções que ninguém discute se cabe ao Estado. Não é programa social, não é política industrial, não é escolha ideológica — é a razão de existir do contrato entre Estado e cidadão.
E é justamente aí que o Brasil mais mata os próprios cidadãos.
Um Estado que não garante a vida de quem paga imposto para ser protegido não está apenas falhando numa política pública. Está descumprindo a cláusula mais básica do próprio pacto que justifica a sua existência.
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