O Brasil cria o boi, produz o couro — e agora importa mais sapato do que exporta.
Em julho de 2026, entraram US$ 66 milhões em calçados e saíram US$ 62 milhões — a primeira inversão da balança em quase três décadas. No mesmo período, o Brasil bate recorde de exportação de couro, mas com faturamento menor, porque cresce a fatia de produto menos processado.
O couro sai daqui. O sapato volta. O valor agregado fica lá fora.
E o maior comprador do couro brasileiro é Hong Kong, onde um sapato comum praticamente não carrega imposto de consumo. Aqui, a carga tributária embutida no calçado chega a 33-36% do preço final.
Não é coincidência de calendário. É a mesma engrenagem tributária empurrando os dois números na mesma direção: exporta-se cada vez mais cru, importa-se cada vez mais pronto.
A Reforma Tributária não corrige essa distorção — reforça. Couro exportado sai com IBS e CBS zerados. O mesmo couro, se ficar no Brasil, virar sapato, gerar emprego industrial e for vendido ao consumidor brasileiro, paga a alíquota cheia do novo IVA.
Exportar matéria-prima: zero.
Transformar, industrializar e vender aqui: alíquota cheia.
A pergunta certa é: por que fabricar sapato no Brasil ficou tão caro?
Potência de verdade não exporta boi e importa bota. É transformar, agregar valor e competir.
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