Eu sempre tenho defendido que, na batalha da divulgação do Agro brasileiro, precisamos avançar além da pauta do potencial que o nosso campo possui. É claro que a conversão de milhares de hectares de pastagens degradadas constitui um dos maiores — se não o maior — potenciais de crescimento do Agro global, constituindo-se na maior fronteira agrícola do mundo. Mas precisamos começar a falar do diferencial com que as nossas proteínas animais e vegetais estão sendo produzidas em nosso país. Isso fica bem claro com a conclusão de um estudo publicado na revista Nature Communications por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), da Embrapa Agricultura Digital e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
O trabalho foi realizado no âmbito do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado na Esalq-USP. É o que poderíamos chamar de recarbonização dos solos com práticas sustentáveis de agricultura. A conversão dos biomas nativos brasileiros em áreas de agricultura resultou na perda estimada de 1,4 bilhão de toneladas de carbono do solo. Essa quantidade, calculada com base em dados coletados por estudos realizados nos últimos 30 anos, equivale à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) equivalente, unidade utilizada para padronizar a emissão de diferentes gases de efeito estufa.
Para se ter uma ideia do impacto desses números, os pesquisadores estimaram que “recarbonizar” cerca de um terço da área agrícola do país já seria suficiente para alcançar a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) do Brasil no Acordo de Paris, cuja meta é reduzir de 59% a 67% das emissões de gases de efeito estufa (em relação a 2005) até 2035. Isso se deve às inúmeras práticas agrícolas sustentáveis que os nossos agricultores já utilizam, como rotação de cultura, plantio direto e sistemas integrados como a ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta).
Esses dados foram coletados por meio de um trabalho robusto, a partir da análise do maior banco de dados sobre carbono dos solos do Brasil, agrupado pelos pesquisadores, que reuniu 4.290 registros provenientes de 372 estudos publicados nos últimos 30 anos. Foram contemplados todos os biomas brasileiros, tanto áreas de vegetação natural quanto de agricultura. Não é por acaso que somos o único país do mundo a ter nome de árvore. Isso mostra a nossa gigantesca vocação em produzir alimentos para o mundo — e produzi-los de uma forma sustentável sem igual entre os nossos concorrentes.
Descubra mais sobre Fé & Trabalho
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


